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Nem sempre o raro é caro


Um antiquário de livros não é um alfarrabista. É um mundo de bibliófilos. Isabel Lucas* descobriu-o na Artes e Letras.


Profissão: antiquário. Algo não muito comum quando se fala de livros. Luís Gomes define-se assim. Não é alfarrabista, não é feirante, não vende livros de ocasião. Há 16 anos que está à frente da livraria-antiquário Artes e Letras, no Largo Trindade Coelho, e diz que só compra o que gosta e que se pudesse não venderia nada do que tem nas prateleiras de madeira de uma casa que fica por detrás de uma porta de vidro, daquelas que dão sinal sempre que entra um cliente.

No interior, há o silêncio dos gatos e dos livros limpos de pó, arrumados por género, raridades mais ou menos raras; raridades mais ou menos caras. “Nem tudo o que é raro é caro”, diz Luís Gomes que não gosta de falar do preço dos livros que vende e que quando lhe chegam às mãos, se não forem para ele, sabe a quem os recomendar. “Tenho encomendas, clientes certos que procuram determinado tipo de livros.”

Quando há um pedido, Luís Gomes procura satisfazê-lo nos leilões, nas feiras, em colecções de particulares. São investigadores, coleccionadores, curiosos. Portugueses e estrangeiros, porque no mundo do livro antigo não há fronteiras. “Há de tudo neste mundo, mas há sobretudo clientes fiéis a uma determinada temática”, conta Luís Gomes, livreiro que vende justamente livro antigo, designação diferente do livro de ocasião que se encontra nos alfarrabistas, nas feiras onde se despejam em mesas de pés coxos, muitas vezes mal recuperados, tantas vezes mal arrumados, desleixados, abandonados.

Ali, na Artes e Letras, cada livro que chega tem uma ficha de leitura e um lugar específico numa prateleira. “São livros que trazem pela primeira vez algo de valor civilizacional. Uma teoria filosófica, um romance que muda a história da literatura ou o início de uma nova corrente. Esses são os mais valiosos, mas a especulação, a procura, é que comanda o preço e essa pode ser estimulada por uma dedicatória, pelo estado de conservação, pelas encadernações, ou, num leilão, pela disputa de vários interessados, uma disputa que pode fazer duplicar ou triplicar o valor de um livro. Nos últimos anos, o mercado do livro antigo tem crescido em Portugal. Há muita gente a vender e a comprar. Luís Gomes deixa um conselho para quem quiser entrar.

Primeiro é preciso ler. Há muita gente que colecciona e não lê. Não se deve coleccionar só por moda ou investimento.” O primeiro mandamento é, pois, o gosto pelos livros que leva ao desgosto na hora de separação. Como quando Luís Gomes teve de vender uma primeira edição da Mensagem, de Fernando Pessoa. “Doeu. Mas não me posso esquecer que isto é um negócio, além de ser um prazer.”

*Jornalista do Diário de Notícias

terça-feira, 13 de Maio de 2008

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