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Carta aos pais

 Não sei se já reparou numa coisa muito simples: um livro é sempre uma caixa de ferramentas. Há livros para tratar das plantas, há livros para ensinar a conduzir um carro, há livros para viajar pelo mundo fora, há livros para mostrar como se vive em sociedade, há livros para conhecermos as naus, os piratas, as aventuras dos mares e as ilhas dos tesouros, há livros para adormecer e histórias para levar as crianças a comerem a sopa. Mas sejam livros práticos, ou livros de ensino, ou aquilo a que se chama literatura, isto é, romances, poesia, ensaio, teatro, pensamento, história, todos os livros foram feitos, escritos e impressos, distribuídos, dados e vendidos, para ajudar cada um de nós a viver. E é por isso que há livros onde os filhos aprendem a gostar dos pais, os pais descobrem que os filhos não são exactamente como eles eram quando foram os filhos que ainda são, e há livros onde se ensina a ver paisagens, e outros que nos trazem os cheiros e os sabores de outros lugares, e há livros para aprender a namorar, a dizer a ternura, o amor, a dificuldade de dizer, o medo de envelhecer, a tristeza, o deslumbramento de o mundo existir à nossa volta. E nada, absolutamente nada, substitui essa enorme alegria de abrirmos um livro, de lermos meia dúzia de palavras, e vermos um outro mundo possível a nascer dentro dos nossos olhos e das nossas próprias palavras. Hoje em dia, é tudo muito rápido, e a gente perde-se no meio das informações, dos noticiários, dos jornais, das televisões, das internets, dos telemóveis de todas as gerações, e por vezes precisamos de fazer uma pausa, parar para arrumar as coisas à nossa volta e começarmos a pensar com a nossa própria cabeça. Pode ficar certo de que para nos ajudar a pensar, a trabalhar naquilo de que se gosta, a ser mais produtivo e criativo, ainda não se inventou nada de mais eficaz do que um livro. Um livro anda mais devagar, mas dá tempo ao tempo. Ao tempo para viver melhor. Vá com o seu filho a uma livraria, compre-lhe um livro de que ele goste, inscreva-o numa biblioteca, descubra o seu filho nos livros que ele lê e fique mais próximo dele ao falar-lhe dos livros que leu. Lentamente, mas definitivamente, cada livro novo vai fazer parte da família.

                                                                                         Ção (com c de cão)
 
 


 

ODE AMATÓRIA

Meus livros amados,
Como trepadeiras
Sobem, apinhados,
Paredes inteiras.

Alargam seus flancos
Por cômodos, quinas,
E erguem-se em barrancos
Fabricando esquinas.

Lombadas, brochuras
Me olham das estantes,
Marroquins, nervuras,
Discretos, berrantes,

E neles me espiam
Gregos e sumérios,
Almas que extasiam,
Monstros deletérios.

Quinze mil amantes,
Bem embaixo, em cima,
Livro, o agora e o antes,
Palavra sem rima.

Que vida haveria,
Reles, pouca, porca,
Sem tal companhia,
Taça que se emborca.

Fólios, incunábulos,
Línguas e cidades,
Semblantes, vocábulos,
Desastres, vaidades,

Bulas, manuscritos,
Toda a espécie humana
Em grilhões escritos
Numa caravana

Que cruza o deserto
Nosso, soledade,
O longínquo, o perto,
O agora, a saudade,

De mãos dadas, nisto,
Filho, pai e avô,
Juntos Jesus Cristo
E o Doutor Petiot.

Sarabanda estática,
Vertical loucura,
Viagens, numismática,
Budismo, pintura,

E os autores todos,
Vivíssimos, mortos,
Ancestrais rapsodos,
Místicos absortos,

E entre os que pisaram
Nas poentas paragens
Os que em almas aram,
Tipos, personagens,

Todos, todos juntos,
E os florões, e espelhos,
Colofões defuntos,
Frontispícios velhos...

Que teria eu sido
Sem tal ebriedade,
Meu portão fendido
Para a eternidade,

Para o imenso, a viagem
Da alegria humana,
Sem mais dor, voragem
Que nos unge e irmana?

14-1-2009

Poema de Alexei Bueno

(inédito) 

 
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Disponibilizamos on-line um catálogo com cerca de 5000 títulos ao qual regularmente serão adicionadas as novas aquisições. Organizado por categorias navegáveis, cerca de 400, o nosso catálogo foi pensado para uma consulta rápida e precisa.

 

 
         

Vender livros velhos com afecto

 

Apesar da crise (ou por causa das crises) gostaria de pensar que o projecto inicial ainda é possível. Vender livros como quem vende LIVROS, e não como se fossem laranjas ou batatas se bem que vender batatas também tem o que se lhe diga. Vender um livro é um processo acumulado de conhecimentos, do autor, do texto, do comprador, o sucesso de uma venda está na venda seguinte, só aquando da volta, e algumas vezes da (re)volta do cliente - por vezes despertar para a indignação é importante -  temos a noção que os critérios foram os adequados. Quem vende livros tem responsabilidades, quer tenha disso consciência ou não, a primeira é para com o seu público o que em contrapartida permite a continuidade do seu negócio, da sua vida. Um cliente, um leitor, um bibliófilo constrói-se aos poucos, com confiança, de cada vez que passa pela livraria. Vender bestsellers qualquer supermercado o faz. Nós, livreiros, temos que ser honestos, e não falo de preços, falo de afectos quando recomendamos um ou outro título, um ou outro autor, a este ou àquele cliente que queremos acima de tudo, amigo.

 

Maio de 2009
Luís Gomes

 

 

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